O PROJECTO

 

    “Ainda Além Da Taprobana” foi o nome que escolhi para o projecto de uma volta ao mundo num avião monomotor em solitário que tentarei levar a cabo no próximo mês de Agosto de 2003, ”se para tanto me ajudar o Engenho e a Arte”.

 

 

    Esta honrosa referencia à obra maior da literatura portuguesa, pretende significar a necessidade de reencontrar referências neste mundo conturbado em que hoje vivemos e em particular, lembrar às novas gerações a necessidade do empenhamento, do esforço e da abnegação que tornaram possível a epopeia das viagens marítimas, que naquele tempo os portugueses realizaram com tão parcos meios, mas com grande força de vontade.

    Neste caso não pretendo descobrir novos mundos, antes, realizar uma viagem ao interior de mim próprio em busca dessas forças indispensáveis à concretização deste ou de qualquer outro projecto.

    Claro que não se pode dizer que não existam dificuldades técnicas, humanas e algum risco, nomeadamente a travessia do Pacífico, que implicará um voo de 16 horas sem escala e sem alternante.

No dia em que fui largado no CS-ABQ , Piper J4, no Aeroclube de Mirandela

    Sou piloto privado desde os 17 anos, actualmente conto 51, tenho qualificação de voo por instrumentos (IFR), monomotores e multimotores terrestres e ainda ultraligeiros.

    A minha paixão pelo voo começou cedo, culpa do meu querido amigo Eduardo Saldanha, que um dia me levou, com mão sábia, ao sonho de voar. Homem invulgar e piloto de excepção, foi determinante na minha educação.

    Com a idade esta paixão agravou-se, até chegar à situação actual que segundo a minha esposa, que me conhece bem, é quase um estado terminal.

    Os relatos das travessias aéreas sempre me despertaram uma enorme curiosidade. Fui lendo tudo o que apanhava à mão sobre o assunto e lentamente foi crescendo o desejo de aproveitar o primeiro voo ferry que surgisse ao meu alcance.

 

Quick Silver MX L2, o prazer do voo com a cara ao vento

    Tal aconteceu em 1990 a bordo de um bimotor Cessna T310R, acompanhando o malogrado Jim Bell, que alguns anos mais tarde viria a falecer numa aproximação por instrumentos, no meio de uma tempestade de neve, ao Aeroporto de São João da Terranova no Canadá, tão bem conhecido pelos pilotos ferry e pelos Portugueses que se dedicavam à faina do bacalhau. Fiz então a primeira travessia do Atlântico Norte até Santa Maria - Açores e daí para Lisboa. É difícil descrever a emoção que senti. Finalmente entrara no secreto mundo dos pilotos ferry e das travessias Oceânicas. Estive atento a tudo, sobretudo a prescutar-me, tentando avaliar as minhas emoções, a imaginar como me sentiria se estivesse sozinho, tarefa facilitada por estar liberto da atenção à  pilotagem.

 

Foto tirada pelo malogrado Jim Bell, num voo de parelha para suprir a sua falha de comunicações

    Esta experiência, em vez de satisfazer a minha curiosidade, despertou ainda mais, se possível, o meu desejo de repetir, mas desta vez sozinho, para grande desgosto da família sempre ansiosa com estas andanças.

    A sorte bateu-me à porta dois anos depois. Um amigo e familiar, grande entusiasta da aviação, solicitou-me ajuda para escolher um avião nos E.U.A..Não pude resistir. Aceitei dar todo o meu apoio embora os meus conhecimentos fossem, na altura como ainda hoje, parcos. A contrapartida? Evidente mesmo sem ser Watson: teria que fazer o voo de regresso a Portugal e desta vez sozinho. Até a partida decorreram dois meses de crescente ansiedade, de dúvidas e certezas que em turbilhão se sucediam na minha cabeça ao sabor da noite, da madrugada, do dia...

    Cessna 182 RG em Prince Edward Island, a caminho de Ste John's

    Aos comandos do avião, um Cessna 182 RG, monomotor de asa alta, com 230 cv, saí de São João da Terra Nova no Canadá, numa madrugada de Agosto, bastante nublada, embora para mim parecesse radiosa, tal qual a emoção que sentia.

    Isto era realmente o que sonhara, curiosamente o facto de voar dentro de nuvens, motivo de tensão para a generalidade dos pilotos, ajudava a criar um ambiente realmente mágico. As duvidas, as nossas fraquezas mais íntimas, tudo desfila diante de nós, mas também os sonhos e a vontade de os realizar, de nos transcendermos engrandecidos pelo desafio.

    Após uma hora e meia, um bonito Sol terminou com este estado de alma de pura exaltação, para entrar directamente no deleite de um voo sereno e tranquilo por cima deste mar imenso que nos une às Américas. Nove horas e meia depois pousava em São Miguel, nos Açores. O mesmo Sol no dia seguinte acompanhou-me até Cascais.

 

    Estava feito, visto, vivido e claro que é uma coisa perigosa, sobretudo para quem não é um piloto profissional. Assunto encerrado por decisão familiar com o meu sincero e honesto acordo. Outra coisa a razão não poderia sentenciar.

O perigo espreita a cada esquina, diz o povo e é bem verdade, sobretudo para aqueles que passam nas esquinas diria eu.

Momentos antes da partida de Ste John's junto do meu grande amigo António Faria e Mello, no T210 M

        Assim aconteceu comigo. Em 2000 fui buscar um Cessna T 210M para um grande amigo que cometeu a ousadia de confiar em mim para esta missão. A pretexto da reunião fundadora do clube dos Earthrounders (pilotos que completaram uma volta ao mundo) fui acompanhado pelo Cte. Faria e Mello, velha raposa dos ares, muito calejado nestas andanças, ilustre convidado deste primeiro encontro na qualidade de Earthrounder, ainda por cima como “wheelchair aviator”(piloto em cadeira de rodas),o segundo a completar uma volta ao mundo nessa situação em toda a história da aviação. Voámos de Addison, no Texas, até São João da Terranova, onde maugrado o meu convite o Cte. Faria e Mello fez questão que eu vivesse na intimidade da solidão, mais esta travessia: a confirmação segundo as suas palavras.

    Só mais tarde comecei a perceber que não foi inocente esta sua decisão; começara a lenta encubação do vírus do ”Earthrounder“ num corpo – confesso –avidamente desejoso de o receber.

    O tempo foi passando e o resultado foi-se manifestando, primeiro timidamente, em meras alusões, depois ensaiando possibilidades, até que por fim a marcação da 3ª reunião dos Earthrounders em Perth na Austrália, foi a faísca que veio desencadear a catástrofe.

    Ao contrário do Cte. Hans Schmidt, que receou ser considerado louco quando declarou à esposa que gostaria de fazer duas voltas ao mundo seguidas, receio infundado, eu não tive qualquer dúvida que seria rotulado, por bem menos, completamente insano. E assim foi, sendo-me vaticinada a perspectiva de virar anchova nos dentes de um qualquer tubarão algures no Pacífico. À parte estes momentos de humor tenho que reconhecer que para a família não é uma situação fácil, que contudo não a tem impedido de me dar todo o apoio.

Mesmo perante a sombria perspectiva da anchova, a paixão levou a melhor:

    Aqui estou para tentar cumprir o objectivo de fazer uma volta ao mundo.

    E, como diz o poeta, “Voando” espalharei por toda a parte se a tanto me ajudar o Engenho e a Arte.