Honolulu-Hilo-Sta. Barbara

antes... Christmas Island-Honolulu

    Depois de quase duas semanas de espera, os nervos começam a dar sinal, sobretudo quando se vive debaixo da ansiedade permanente de saber se o Piloto Automático iria funcionar ou não. Por duas vezes recebi a informação telefónica: "That's fixed!!!" (está arranjado) e por duas vezes constatei que não!!!

    Da última vez fiz mesmo um voo de ensaio que resultou num autêntico "Great American Disater". Não só o PA não funcionou como o rádio 2 se calou, no preciso momento em que estava a falar com a aproximação de Honolulu. Lembram-se que perdera o rádio nº 1 em Singapura. Pois agora tinha sido a vez do nº 2 que tivera a consideração de esperar que o nº 1 funcionasse. A fábrica enviou uma unidade de empréstimo enquanto procedem a reparação. Os ventos não estavam favoráveis e essa circunstância por incrível que pareça ajudava a suportar a espera. A disposição era tal que fomos uma única vez à famosa praia de Waikiki, quase por acaso: Fomos à procura de um restaurante onde pudéssemos comer um bife sem toppings, marinatedes, e sobretudo sem Chief Creations, ou seja, grelhado sem qualquer tempero, tarefa assaz complicada em Honolulu, o que nos levou muito perto da famosa praia. Encontrámos o restaurante, mas para mal dos nossos estômagos só abria às 15:30. Optámos por um outro onde tentámos comer uma pizza que se revelou tarefa árdua. Para desmoer fomos então passear até Waikiki a famosa praia onde nasceu o "SURF". O moral estava a começar a roçar o zero quando os ventos começaram a mudar. E digo os ventos reais, não os da sorte, porquanto o PA continuava a arrastar-se entre a bancada da loja de Avionics e o avião em tentativas várias todas com o mesmo resultado. Sabíamos de antemão que se o vento mudasse não seria por muito tempo, pois nesta altura do ano a predominância é de Este para Oeste, justamente o contrário do que precisávamos para fazer a Travessia em condições mínimas de segurança. A perspectiva de voar 16 horas o avião "à mão", confesso, não me agradava.
    O António deixou-me completamente à vontade endossando para mim a decisão, o que me punha um dilema ainda maior: esperar pelo Piloto Automático e eventualmente perder ventos favoráveis ou voar "à mão" um trajecto de 2100 milhas náuticas, cerca de 3700 km. A resposta veio como por acaso: não era possível fazer mais nada em relação ao PA. Consequentemente iríamos de qualquer maneira: já outros o tinham feito, porque não fazê-lo também? A nossa técnica de planeamento TMFD iria mais uma vez resolver esta situação que embora difícil poderia ser ultrapassada. Saímos de Honolulu por volta das 4 da tarde locais para aterrar em Hilo uma hora e meia depois do pôr-do-sol. Depois de reabastecer ainda fiz uma última pergunta ao António: Sentes-te bem? A resposta pronta acabou com a minha última esperança de ficar a dormir em Hilo e partir no dia seguinte. Descolámos já de noite, com algumas dúvidas, mas muita determinação. O vento teimou em não nos tranquilizar.
    Durante as primeiras duas horas arrastámo-nos pelos 103-110 knots, o que não nos permitiria atingir Sta. Barbara. Começaram a desenhar-se no horizonte as nuvens negras do regresso. É difícil transmitir o turbilhão de sensações que esta perspectiva acarretava. Voar até ao ponto de não retorno, provavelmente cinco horas e meia e ter de regressar ao ponto de partida, durante mais cerca de cinco horas. Pouco a pouco, à medida que nos aproximávamos da longitude 140 os ventos começaram a mudar, aliás tinha sido esta a previsão da meteorologia, baseada num modelo de computador. Nós estávamos a ensaiar, se fosse correcto, o modelo era bom, mas certezas só no fim. Um autêntico sufoco, olhar para o indicador de velocidade, como que a querer com a forca da nossa mente fazê-lo subir para os ansiosamente esperados 130 knots que nos garantiriam chegar a salvo a Sta. Barbara. Diz o povo que só nos lembramos de Sta. Barbara quando troveja, e de facto nunca o nome Sta. Barbara me passou tantas vezes pela cabeça, não porque trovejasse, mas na minha mente, ia uma grande turbilhão.
    À forca de tanto olhar para a velocidade ou porque Sta. Barbara intercedeu, lentamente, chegámos aos 130, 135, o que nos trouxe alguma tranquilidade. Com toda esta preocupação quase me esqueci que não tinha PA e tampouco tive daqueles ataques de sono que são tão difíceis de suportar. A madrugada surpreendeu-me, pensando eu estar a ver o reflexo da luz da Lua, mas a progressiva intensidade não me deixou dúvidas: o dia estava a nascer, ocorreu-me então que voávamos contra o Sol com cerca de três horas de diferença entre os pontos de partida e chegada. Comecei a descontrair e a acreditar que chegaríamos a bom porto. Faltariam cerca de três horas quando o meu relativo descanso foi brutalmente interrompido pelo António que me chamava pelo rádio para dizer que o indicador de voltagem se tinha apagado!!! Fiz um grande esforço para lhe responder com voz calma por entre uma náusea que teimava em subir do estômago até à cabeça. Iríamos ter um replay da situação de Colombo-Singapura?
    Como continuávamos a ter comunicações, comecei a ter alguma esperança que a situação não fosse tão grave e, em conjunto, começámos a tomar as precauções para o caso de se seguir uma falha total de corrente eléctrica. Desta vez, pelo menos o rádio de emergência estava operativo e o GPS portátil tinha pilhas novas e mais importante, era de dia!! O tempo foi passando e como a situação não piorou, começámos a acreditar tratar-se de uma mera falha de alimentação do indicador.
    Sta. Barbara estava à vista e a situação mantinha-se. Desta vez não passara de um susto, grande, mas um mero susto, nada raros na aviação. Uma aproximação visual pôs-nos na pista, com grande contentamento nosso e porque não dizê-lo com uma ponta de orgulho - Tínhamos dobrado o nosso Cabo das Tormentas!
 

Delfim Costa

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a seguir... Sta. Barbara-Carson City