Pago Pago-Christmas Island (Adiado)

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    Resolvemos descolar de noite para Christmas Island de forma a chegar já de dia.
    Também tem sido hábito não conseguirmos pregar olho, durante as horas que destinamos serem as do último repouso antes de irmos para o aeroporto. Cá a mim parece que de repente me vêm todas as comichões que tive desde criança. Quando mais faço por dormir, mais vontade tenho de me coçar. É de enlouquecer e o resultado é invariavelmente o mesmo - cansaço e uma má disposição diabólica. Tudo isto passa quando começo a voar. Parece que preciso daquele tipo de "cocaína aérea", para me estabilizar da cabeça aos pés.
    Fomos os dois para o aeroporto. Como tudo já estivesse preparado de véspera, em breve estávamos a iniciar a rolagem para a pista. O Delfim à frente e eu atrás. Descolámos os dois com um intervalo de tempo superior a 10 minutos. Quando já ia a cerca de 3000 pés de altitude, ouvi o Delfim na rádio:
    "Tenho de voltar para trás, deixei a porta da bagageira aberta".
    Respondi : "Eu vou já voltar para trás antes de ti, para não empandeirar o tráfego".
Voltei, fiz uma descida de instrumentos e aterrei. O Delfim aterrou cerca de 20 minutos depois. Fechou a porta da bagageira e resolveu o problema.
    Tornei a pôr o motor em marcha e de novo voltámos a rolar para a pista em uso.
A certa altura o Delfim alinhou o avião na pista para descolar e eu mantive-me na chamada posição de espera.
    Não sei o que diabo se passou "outra vez", mas o que é facto é que todo o equipamento se começou a apagar de forma perfeitamente idêntica àquilo que sucedeu no famigerado trajecto de Colombo para Singapura. Enquanto o corpo se me inundava de um suor frio do mais desagradável que imaginar se possa, senti uma cólica no estômago, como se o mesmo estivesse a ser sugado por um potente aspirador. Até me dobrei para a frente com aquela dor instantânea que me arrepanhou a barriga.
    Agarrei no meu emissor de emergência e quis transmitir ao Delfim para não descolar, pois eu ficaria no chão. Houve uma certa confusão na introdução da frequência, pois os rádios estavam todos apagados e eu esquecera-me da frequência da aproximação que estava utilizando. Entretanto o Delfim descolara. Finalmente falei para a frequência da Torre, 118.1 e, aí então, o Delfim ouviu-me, voltou para trás e avisando a controladora, na frequência da aproximação, dos meus problemas. Regressámos pois ao Hotel, de monco caído, tentando disfarçar o indisfarçável.
    O Delfim, no dia seguinte de manhã, lá foi caminho do aeroporto tentar resolver o meu problema ou pelo menos saber o que teria ocasionado tudo aquilo no sistema eléctrico do avião. A partir de agora, a explicação que me foi dada pela oficina de manutenção em Singapura não me convencia de forma inequívoca. Se calhar, mais uns dólares deitados à rua e uma avaria que ficou por reparar devidamente.
    Gostaria aqui de referir, e se o fizer um milhão de vezes nunca é de mais dizê-lo; o Delfim fez questão de se meter nesta aventura com um "coxo" que, na maioria das vezes, em nada o pode ajudar. Eu avisei-o, mas ele não quis saber. Diz o povo: "... quem corre por gosto não cansa...". De facto, o Delfim nestas cegadas que lhe tenho arranjado, nunca se cansou de me ajudar. É de facto um grande amigo e companheiro, para além de ter evidenciado, em situações complicadas, possuir sangue frio e uma cabeça que trabalha com a precisão de um relógio Suíço. Posto isto ou seja depois desta "engraixadela", não vá a o gajo deixar de me dar as mordomias a que me habituou, vamos ao resto...
    Combinámos pois, seguir viagem no dia seguinte prevendo a nossa saída duas horas antes do Sol nascer, afim de chegarmos a Christmas Island antes do pôr do Sol. Assim, voaria de dia, apenas com o equipamento necessário, afim de sobrecarregar, o menos possível o sistema eléctrico que seria posteriormente verificado em Honolulu.
 

António Faria e Mello

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