Colombo-Singapura

antes... Seychelles-Colombo

    Uma hora antes do pôr do Sol, os aviões estavam preparados para mais um vôo que esperávamos cansativo, porque um pouco longo, mas sem outros problemas além de algum mau encontro com Charlie Bravos, calão aeronáutico utilizado para designar nuvens de desenvolvimento vertical, de seu nome Cumulo-Nimbus, verdadeiros Dráculas Dos Ares, associados às trovoadas que no seu interior desenvolvem correntes de ar ascendentes violentas, cujo rápido arrefecimento origina a formação de gelo na forma de granizo, ou seja, obstáculos a evitar a todo custo!!!
    Decorridas cerca de duas horas sobre a descolagem, sem grandes sobressaltos, comentava eu com o António que estava tudo "jóia", pois tínhamos quase 20 nós de vento de cauda, guloseima muito apreciada pelos pilotos, sobretudo em voos longos, quando notei dificuldades nas comunicações. Insisti com ele para que me respondesse. A resposta tardou um pouco, veio com voz muito calma, mas a mim soou-me a um grito: "Delfim, estou a perder comunicações, já perdi o GPS, o alternador deve estar fora de serviço!". Acusei a recepção da mensagem e com o coração aos saltos, embora fazendo um grande esforço para aparentar serenidade, que nestas alturas eu sabia ser muito necessária a quem está em dificuldades, pedi mais esclarecimentos e procurei saber se pretendia regressar a Colombo. Já não obtive qualquer resposta.
    É muito difícil transcrever aqui o que senti e os pensamentos que me ocorreram naquele momento. Tentei como pude localizá-lo pelas luzes de presença, o que consegui ao fim de algum tempo; vi que se mantinha na minha cauda, o que interpretei como um sinal de que pretendia seguir como previsto no nosso plano de vôo. Tinha lógica, o António não queria arriscar uma aproximação nocturna a um aeródromo com muito tráfego como o de Colombo. Ajustei a minha velocidade para que me pudesse acompanhar, e embora bastante preocupado, foi nascendo em mim uma forte convicção que o António conseguiria ultrapassar mais esta dificuldade, com a mesma força e determinação com que enfrenta o seu duro dia-a-dia. Era um desafio à sua altura.
    Por várias vezes vi o seu avião a aproximar-se de mim como que a confirmar que tudo estava bem, apesar das circunstâncias precárias em que voava: falha de energia, significa não ter luz para ver o painel, não ter instrumentos de navegação, não ter transponder, ou seja, não poder ser detectado pelo radar secundário, não ter indicações de combustível para poder mudar a alimentação do motor de entre os cinco tanques e, sobretudo, não poder descer o trém de aterragem electricamente, restando-lhe a possibilidade de o fazer manualmente, tarefa complicada e perigosa se tiver de ser feita a baixa altitude.
    Logo que pude, porque também não tinha comunicações em HF, as únicas utilizáveis no mar, a grande distância de terra, o que era o caso ,ou seja, seis horas mais tarde, entrei em contacto com o Control da Indonésia, ao sobrevoar a Sumatra, a quem reportei a situação, pedindo se o podiam localizar pelo radar primário, que quase só já existe nas Bases Aéreas. Algum tempo depois tive a confirmação daquilo que o meu coração me dizia, pois com o nascer do dia tinha perdido contacto visual com ele. Reportaram-me um tráfego não identificado a voar a cerca de três milhas às minhas nove horas, o que significa ligeiramente à minha frente e à esquerda. Segui sempre de acordo com o plano de vôo em direcção a Singapura, aeroporto de Seletar.
    Já em contacto com a aproximação, voltei a reportar a situação e novamente pedi informações do António. Percebi que estavam a manter uma área livre de tráfego para ele poder entrar em Seletar, pois estavam a perguntar a todas as aeronaves qual o combustível a bordo e ouvi os vectores radar, indicações de rumo para voar em círculos sobre o aeródromo. Cerca de vinte minutos mais tarde o Control informou-me que o CS-AZI tinha aterrado em segurança em Seletar. Quando cheguei ao pé do António, com muita emoção e alguma lágrima que teimava em me deixar ficar mal, fiquei a saber o resto da história: por razões de segurança o António tinha escolhido um terreno sem obstáculos para descer manualmente o trém, que por coincidência era uma base militar de alta "sensibilidade" ao lado de Seletar. Resultado: estávamos detidos e durante oito horas fomos submetidos a duro interrogatório, que só terminou na esquadra de Polícia local, para onde fomos transportados de Ramona. No dia seguinte o António passou a ser, segundo os jornais locais, o "intruder" que desencadeou o alerta vermelho na base aérea de Singapura. Seguiu-se uma entrevista no canal 5 e um corrupio de jornalistas de que me safei porque tive que ir ao aeroporto tentar resolver a avaria que tinha provocado todo este drama.

O António mais uma vez demonstrou a raça de piloto se é que alguém tinha dúvidas.
 

Delfim Costa

Não deixe de consultar o extraordinário relato do Cmdt. Faria e Mello, disponível aqui!

a seguir... Singapura-Bali