Tires-Iraklion

 

    Percebo agora melhor a máxima do Faria e Mello, que em temas de volta ao mundo sempre diz "vamos tentar" em alternativa ao "vamos fazer".

    De facto a nossa tentativa de partir no sábado, dia 09/08 às 18:30, foi bastante atribulada. Descolámos por duas vezes e por duas vezes tivemos que regressar. Primeiro foi o transponder do CS-AOD que resolveu meter dispensa, à vertical da Caparica e não houve maneira de o convencer a acompanhar-nos. Regresso a Cascais onde, depois de várias peripécias e da boa vontade do Luís Simas que veio de Lisboa propositadamente para resolver o problema, e a prestimosa ajuda do Sr. Arnaldo Leal que autorizou a troca por um outro aparelho idêntico instalado num avião da Leavia, se resolveu o problema.
    Descolagem para teste no circuito do Aeródromo tudo funcionava como deve ser, novo reabastecimento, e aí vamos nós. A sorte, contudo, não estava de feição e pouco depois de passar a Caparica ouço na frequência (rádio) o António a reportar problemas com a perfomance de subida e o aquecimento do CS-AZI. Decisão pronta adequada à situação bem ao estilo do António: Regresso à base. Diagnostico: deslocamento acidental da carga que estaria mal estivada nas condições de peso máximo à descolagem devido ao peso do combustível, provocando uma atitude anormal de "nariz em cima" e uma situação de inversão da temperatura - que aumentou com a altitude ao contrario do que é normal. Depois de toda a expectativa da partida dos abraços de despedida de todos os nossos amigos e familiares, que me causaram uma emoção profunda, foi uma situação difícil mas a única que se impunha nas circunstancias. Mais vale começar um pouco mais tarde mas bem! Temos muito ar pela frente.
    Domingo de manhã depois de uma noite muito bem dormida tudo se resolveu. Ás 18:30 locais o "ALICE 19" ganhou os ares com bastante elegância apesar do sobrepeso; aviões de alta perfomance aerodinâmica pagam o seu preço com alta sensibilidade ao peso e centragem!
    O "Saldanha" foi-lhe no encalço 10 minutos depois. Passada a tensão inicial comecei a descontrair à medida que me aproximava do nível de cruzeiro, FL O80, equivalente a 2400 metros de altitude. Com essa descontracção, que nunca é total, veio-me o prazer do voo, da companhia do António com quem ia comentando que tudo o que sofremos com os aviões nos é retribuído.
    Com a lua por companheira fomos progredindo: Cáceres, Toledo, Castejón, Valência, Maiorca, Ibiza, Sardenha, Itália, Sicília, onde fomos submetidos ás condições mais duras deste voo: receber os primeiros raios de sol, autênticas setas que é impossível evitar por mais escuros que sejam os óculos; uma verdadeira tortura que só alivia com a lenta subida do Sol. Com esse mesmo Sol aterramos na bonita ilha de Creta ao fim de 13 horas e meia. A aventura começou bem, esperemos que assim continue.
   
    Amanhã, depois de merecido repouso saímos para Djibouti.


Delfim Costa

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